sexta-feira, 30 de abril de 2010

O que falta para a banda larga deslanchar de vez no Brasil?


Penetração do serviço no País é de apenas 5,98 assinantes para cada cem habitantes e, apesar da demanda, crescimento vem diminuindo. Por quê?

A penetração de banda larga no Brasil é uma das mais baixas do continente sul-americano. Em cada grupo de cem habitantes, apenas 5,98 tem acesso ao serviço, em média - um índice que deixa o País atrás de Chile (10,39), Argentina (10) e Uruguai (9,97), por exemplo. O País tem hoje, entre conexões fixas e móveis, 15 milhões de assinantes de banda larga, aponta o Barômetro Cisco de Banda Larga 2005-2010.

Apesar do potencial para expansão, os dados de expansão da banda larga no país sugerem uma acomodação, mostra o estudo da Cisco. Desde 2001, o crescimento anual relativo tem diminuído, de 107,9% em 2002 para 16,5% em 2008, em relação a 2007. Em 2009, um sinal de fôlego: o crescimento no primeiro semestre em relação ao fim de 2008 foi de 26,4%. Mas o segundo semestre cresceu apenas 4,1% em relação ao primeiro. Por que, se há tanta demanda?

“Não é que o serviço tenha chegado à saturação”, esclarece o diretor geral da Cisco para o segmento de provedores de serviço, Anderson Abreu. “É que as operadoras não estão dando vazão à procura”, conta.

Mais rentáveis
O diretor estima que, das quase 5,7 mil cidades brasileiras, as operações de banda larga mais lucrativas concentram-se num grupo de 200 a 300 localidades. “E mesmo essas cidades não estão totalmente cobertas”, revela. “Para atingir novos usuários, as operadoras terão que ir a novas cidades, e isso aumenta o custo de backhaul”, que é como são chamados os links entre a rede central (backbone) e as subredes. “Instalar fibra [óptica] não é uma coisa barata, ainda mais em um país de dimensões continentais.”

Uma alternativa para levar a banda larga a mais cidades seria por meio do Plano Nacional de Banda Larga. No entanto, o governo federal tem adiado repetidamente a apresentação dos detalhes de implantação do plano, que promete estender o serviço a metade dos domicílios brasileiros.
Uma mudança detectada pelo estudo da Cisco envolveu o perfil da conexão. Em dezembro de 2009, a maioria das conexões no País (57,3%) tinha velocidades abaixo de 1 Mbps. Essas classes de serviço, porém, estão em queda - as velocidades com 1 Mbps ou mais rápidas são as que mais crescem em número de assinantes, revela o Barômetro, com dados do IDC.

Um fato curioso é que, segundo o estudo, 9,5% das conexões banda larga tinham velocidades menores que 256 Kbps (para efeito da pesquisa, banda larga é qualquer conexão com 128 Kbps ou melhor). "Na maioria desses casos, são IPs dedicados", explica Abreu, "usados por empresas em conexões síncronas, que garantem essa velocidade para upstream e downstream". Na maioria das conexões domésticas de banda larga, a velocidade mínima garantida é de 10% da divulgada.

Quando possível, o usuário tem compensado a ausência da banda larga fixa com a móvel – que, para a pesquisa, compreende o uso de modems 3G (ou de celulares 3G com função de modem) a PCs. Mas o Barômetro Cisco também destaca que a adesão a este serviço não tem crescido como antes. Falta de interesse do consumidor? De novo, não, explica Abreu. “O que aconteceu é que a banda larga móvel morreu de sucesso”, resume. “Ela extrapolou qualquer expectativa otimista.”

Fome de banda
O que aconteceu com a banda larga móvel, segundo o diretor, é que as operadoras descobriram que a largura de banda oferecida por um ERB era consumida integralmente, não importando sua capacidade. “Se colocassem 2 ou 4 Mbps, como algumas fizeram, os usuários de banda larga móvel – principalmente os ‘heavy users’, que baixam arquivos em redes tipo BitTorrent - iriam usá-la. O que chegasse iria ser consumido rapidamente.”

Abreu prevê que o descompasso entre oferta e demanda vai continuar por mais dois anos. “As operadoras móveis estão investindo de forma maciça em acesso, mas isso leva tempo. Se uma operadora encomendar hoje um equipamento de telecom, receberá a encomenda em dois meses. Mas abrir chão demora mais”, diz.

Outro aspecto são as janelas de manutenção – período em que uma ERB deixa de operar para receber novos equipamentos. O executivo conta que essas interrupções de serviço são exaustivamente negociadas e realizadas durante a madrugada, em curtos períodos, para não comprometer o serviço ao assinante.

Caso pontual
Em algumas regiões, como a Nordeste, houve sintonia entre demanda e oferta, aponta o Barômetro.  Foi na região que a adesão à banda larga mais cresceu. “É preciso contextualizar esse crescimento. Claro e TIM começaram a testar suas bandas largas móveis no Nordeste, e a GVT, que era forte no Centro-Oeste, chegou à região no 2.º semestre de 2009. Por conseqüência, o Nordeste recebeu muito mais investimento que as outras regiões.”
Abreu cita o caso do Estado de São Paulo, que perdeu 0,85% de fatia de mercado no total de conexões banda larga do País. “Mas isso não quer dizer que a presença de São Paulo tenha diminuído.” O executivo diz que é certo que a banda larga no Brasil vai crescer, e que a internet móvel terá crescimento mais rápido que a fixa. “Mas teremos diversos pontos de inflexão no caminho, o que é normal”, afirma.

Por Robinson dos Santos, do IDG Now!

Publicada em 30 de abril de 2010 às 07h00
Atualizada em 30 de abril de 2010 às 08h34


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