Intel quer invadir sua sala de estar
Para que a estratégia seja bem sucedida, empresa terá que superar histórias anteriores que não deram certo e oferecer preços competitivos aos fabricantes.
A Intel espera conquistar uma presença maior em TVs e set-top boxes com a plataforma Google TV, mas para isso ela tem de superar grandes desafios, incluindo histórias anteriores de fracasso e questões de preço, afirmam analistas.
A Google, ao lado de parceiros como Intel, Sony e Logitech, anunciou na quinta-feira (20/5) a plataforma Google TV, que vai combinar recepção de TV e internet em uma só interface. A Google vai fornecer o software, e o serviço estará disponível ainda este ano em alguns modelos de TV de alta definição e aparelhos de Blu-ray da Sony, que receberá da Intel os chips altamente otimizados Atom CE4100.
Os microprocessadores da Intel equipam mais de 80% dos computadores do mundo, mas a empresa ainda luta para estabelecer uma presença no espaço das TVs, apesar de múltiplas tentativas de entrar neste mercado na década passada, dizem analistas. Esforços anteriores da Intel e de antigos parceiros para fazer o conteúdo da TV migrar para o PC foram rejeitados pelos consumidores, e agora a empresa muda sua tática ao levar o conteúdo da internet para aparelhos de TV, set-top box e DVD players.
O custo dos chips Intel também é considerado relativamente mais alto que os da concorrência, o que poderia encarecer os preços das TV, dizem os analistas. Há aparelhos mais baratos de TV que oferecem interfaces web padrão e que poderiam competir com a Google TV, o que poderia afetar os esforços da Intel de se reestabelecer no mercado.
Um milhão
A Intel tem tentado convencer os principais fabricantes de TV e empresas de eletrônica de consumo a usar o último chip Atom CE4100. O chip inclui um núcleo capaz de rodar a velocidades de até 1,2 GHz e que decodifica duas transmissões de vídeo de 1.080 linhas no modo progressivo. Os chips estão em produção e a empresa disse ter recebido pedidos para mais de um milhão de chips CE4100.
Com Google, Sony e Logitech, a Intel tem os melhores fornecedores de software e hardware para levar seus chips às salas de estar, disse Wilfred Martis, gerente geral para eletrônica de consumo no grupo de Digital Home (casa digital) da Intel.
“Eu penso que todas as peças não estavam alinhadas como estão atualmente”, disse Martis. Mais casas têm aparelhos de TV de alta definição, vídeo online tem atraído mais atenção e banda larga está disponível facilmente, o que não era o caso na década passada.
As aspirações da Intel de penetrar no mercado de TVs remontam ao fim da década de 1990, mas muitos desses esforços não foram bem sucedidos, disse Nathan Brookwood, principal analista da Insight 64. Um dos primeiros esforços da Intel foi a Viiv, plataforma que incluía tecnologias de hardware e software para trazer a TV aos PCs. Mas a iniciativa nunca decolou porque os usuários tinham de esperar a carga do sistema do PC, e a interface não tinha sido projetada para assistir à TV, disse Brookwood.
Widgets na TV
A mais recente tentativa da Intel de levar seus processadores para TVs e set-top boxes foi por meio do Widget Channel, uma plataforma projetada para mesclar televisão e internet e que foi anunciada em 2008 com o Yahoo. Os aparelhos seriam capazes de rodar “widgets”, ou miniaplicações que complementariam a visualização de TV com nacos de informação da web. Muitas empresas demonstraram TVs e set-top boxes com o recurso, mas a plataforma ainda tenta conquistar seu espaço.
O Widget Channel foi um modo de a Intel tornar mais popular a ideia de combinar TV com a experiência da web, disse Martis. Mas ela não chegou a oferecer internet suficiente para que fosse considerada uma experiência completa na web, que é o que a Google TV fará, completou.
O valor real da Google nessa combinação de empresas vem de seu nome, mas isso não garante necessariamente o sucesso para a Intel, já que há muitas TVs que oferecem interfaces padrão de acesso ao conteúdo da web, disse Dan Olds, principal analista da Gabriel Consulting Group. A Vizio, por exemplo, fornece aparelhos de televisão HD baratos e com conexão à internet, com recursos wireless que permitem o acesso a serviços online da Amazon, Pandora, Netflix e Blockbuster.
Depende do preço
O sucesso da Intel pode depender parcialmente de como a Sony vai precificar seus aparelhos de TV e outros produtos, disse Olds. Se as TVs tiverem preço razoável, a Intel será capaz de fornecer mais chips para TVs e set-top boxes.
Mas a Intel tem reputação de vender chips caros, o que poderia elevar o custo das TVs, disse Paul Gray, diretor de eletrônica de TV na empresa de pesquisas DisplaySearch.
Um típico chipset de TV e processador de vídeo custa cerca de 15 dólares, e os chips mais caros da Intel poderiam potencialmente adicionar centenas de dólares aos preços das TVs, disse Gray. Cada dólar extra pode elevar o preço de varejo em quase 3 dólares, avalia.
O CE4100 será mais competitivo em termos de custo se comparado com rivais, disse Eric Kim, vice-presidente sênior e gerente geral do grupo Digital Home da Intel, durante um webcast na manhã de sexta-feira (21/5).
Os rivais da Intel neste espaço incluem a Texas Instruments, Qualcomm, Samsung e outras empresas que produzem chips para TVs e set-top boxes.
Software vantajoso
Para o preço, o chip da Intel poderia oferecer benefícios de software e desempenho em relação à concorrência. O chip da Intel pode atrair fabricantes de TV por minimizar os custos de desenvolvimento, manutenção e validação de software, disse Gray. As margens nos aparelhos de TV são pequenas, e os fabricantes, que não têm foco em software, não podem se dar ao luxo de gastar muito com desenvolvimento. A plataforma de hardware da Intel provê acesso transparente à internet, e aparelhos de TV podem ser atualizados para suportar a plataforma Flash sem grandes investimentos em software.
E para fabricantes de TV que querem a Google TV, o chip da Intel será o caminho a seguir, disse Brookwood, da Insight 64. Comparado com os competidores, os chips da Intel podem também ser melhor capazes de decodificar o conteúdo de alta definição, e também de rodar aplicações projetadas especialmente que podem ser manipuladas com controle remoto.
A Intel também está desenvolvendo seu próprio sistema operacional leve baseado em Linux, o Meego, e espera que ele seja utilizado no futuro em aparelhos de TV e set-top boxes, disse Martis, da Intel. A empresa quer oferecer opções de escolha, e a Google TV não vai afetar planos de levar o Meego aos eletrônicos de consumo.





